
03.06.2026
Há uma pergunta que importa fazer nos tempos que vivemos: o que acontece a uma democracia quando os adversários deixam de ser reconhecidos como legítimos e passam a ser tratados como culpados de todos os males? A pergunta traz à memória autores como Juan Linz, Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, que estudaram precisamente a fragilidade das democracias e os sinais que anunciam a sua degradação.
Linz conheceu de perto a experiência europeia do século XX. Nasceu na Alemanha, cresceu em Espanha durante o franquismo e dedicou grande parte da sua obra ao estudo do colapso das democracias. Levitsky e Ziblatt, numa leitura mais contemporânea, analisaram a forma como as democracias podem enfraquecer por dentro, não através dos chamados golpes militares clássicos, mas pela erosão lenta das normas políticas que as sustentam.
Em momentos e contextos diferentes, estes autores ajudam-nos a compreender uma ideia essencial. A democracia não vive apenas de eleições, constituições ou instituições formais. Vive também de contenção, de respeito pelas regras comuns e da capacidade dos protagonistas políticos se reconhecerem mutuamente como legítimos. Quando o adversário passa a ser apresentado como inimigo da nação, quando a divergência política se transforma em ameaça existencial, quando o compromisso começa a ser tratado como traição e quando a política prefere encontrar um bode expiatório a enfrentar problemas concretos, a democracia fica enfraquecida e mais permeável.
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