
22.10.2025
Apenas um em 10 portugueses têm um grau de literacia financeira elevado (o valor mais baixo da UE), menos de metade compreende um juro composto e menos de um terço diz ter meios suficientes para cobrir as suas despesas por mais de seis meses em caso de emergência.
A realidade destes números, revelados pela Comissão Europeia no seu Eurobarómetro mais recente sobre a Literacia Financeira (2023), levou a que a UE decidisse a colocar na agenda a literacia financeira como prioridade nos próximos anos.
A Comissão Europeia lançou no mês passado a sua estratégia para a Literacia Financeira e o Parlamento Europeu irá arrancar brevemente os trabalhos para o seu relatório de iniciativa sobre o tema, onde serei relatora-sombra para os Socialistas e Democratas (S&D).
Porque este não é um problema só português. É um problema global da UE. Segundo o mesmo Eurobarómetro, apenas um em cada cinco europeus têm um grau de literacia financeira elevado (ainda assim, quase o dobro de Portugal), as disparidades entre os Estados-Membro é elevada e também aqui se revela a desigualdade das nossas sociedades. Mulheres, jovens, pessoas com menores rendimentos, educação ou deficiência são os grupos com menor conhecimento sobre finanças ou como gerir o seu orçamento, tornando-os mais vulneráveis a fraudes e a sobre-endividamento.
A realidade é que vivemos rodeados de situações onde a literacia financeira é chave para nossa vida e futuro. Abrir e escolher uma conta bancária, planear a reforma, pedir um empréstimo para casa ou automóvel, saber o impacto da inflação nos nossos depósitos e que alternativas temos. Com a complexificação do sistema financeiro e a digitalização das nossas vidas, abrem-se novas formas de gerirmos o nosso dinheiro - e multiplicá-lo -, mas também estamos mais expostos a riscos escondidos e a fraude que são mais difíceis de detetar.
Ter uma maior literacia financeira é muito mais do que compreender conceitos como juro, risco ou planos de poupança. É preciso saber o que fazer com eles na gestão do nosso dinheiro e das nossas famílias. Maior literacia financeira significa uma melhor gestão do nosso orçamento individual e familiar, estarmos mais protegidos contra fraude e desinformação (veja-se os casos de phishing ou dos conselhos de alguns influencers), prevenirmos o sobre-endividamento, ter hábitos de poupança, planos seguros para a reforma. No fundo, termos capacidade para tomarmos decisões financeiras informadas.
Um país com uma população mais informada em termos financeiros será também um país com uma economia mais resiliente, eficiente e com mais meios financeiros disponíveis para apoiar o crescimento e desenvolvimento das suas empresas e população.
No nosso trabalho preparatório, o Parlamento irá analisar as melhores práticas em termos de literacia financeira (países nórdicos são um exemplo) e quais destas podem ser aplicadas e adaptadas ao nível da UE. Iremos estudar que tipo de coordenação será necessária entres as várias políticas e na dimensão das competências nacionais e europeias. E também que financiamento e campanhas de promoção serão necessárias para promover a literacia financeira.
Como socialistas, sabemos já algumas das prioridades que queremos imprimir neste dossier. Tornar a literacia uma prioridade transversal na UE, incluir a literacia financeira nos currículos escolares, promover programas dedicados aos grupos mais vulneráveis e acompanhar os fenómenos da Inteligência Artificial, cripto ativos ou influencers financeiros, são algumas delas.
Tornar a Literacia Financeira prioritária na UE é um trabalho de longo curso, cujos resultados durarão anos a surgir e com esperados avanços e recuos. Mas a construção europeia sempre foi feita de projetos de longo curso que, no início, não tinham um impacto mediático relevante, mas que foram fazendo o seu caminho. Veja-se o exemplo do programa Erasmus, cuja “fundadora” Sofia Corradi faleceu este mês, e que é hoje reconhecido com um dos maiores sucessos da UE junto com o Mercado Único ou o euro. Para a Literacia Financeira, a primeira pedra está lançada.
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