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IMPRENSA

Montenenegro subestimou os portugueses

Montenenegro subestimou os portugueses

11.12.2025

Pela primeira vez desde 2013, os trabalhadores portugueses saem hoje à rua para uma greve geral. Em contraste com a última, desta feita não existe a Troika, nem qualquer pressão de credores externos - a quem se poderia tentar transferir parte da responsabilidade. Em 2025, esta greve geral acontece devido às escolhas de Luís Montenegro e à intransigência do Governo da Aliança Democrática.

Com o anteprojeto “Trabalho XXI” - pacote legislativo com alterações a mais de 100 artigos das leis laborais - a Ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, apresentou uma verdadeira revolução. Infelizmente, a reforma estrutural de Maria do Rosário Palma Ramalho revelou-se essencialmente conduzida pelo espírito ultrapassado da competitividade com base em menos direitos dos trabalhadores.

Os portugueses podiam compreender algumas alterações - e eu também - como a expansão dos serviços mínimos em casos de greve, para assegurar condições na saúde ou transportes para a restante população. Mas o caráter desta reforma nunca foi conciliatório: nem a índole radical, nem a postura altiva do Governo, que atacou sindicatos, foi pouco flexível nas negociações e classificou a greve de “sem sentido”, ajudaram a construir uma plataforma de entendimento.

Assim, não é de estranhar a prevalência da greve geral e a enorme adesão social. Ainda é apenas um anteprojeto, mas o “Trabalho XXI” já conseguiu unir as duas maiores centrais sindicais (CGTP e UGT) e mobilizar até os Trabalhadores Social-Democratas, associados ao PSD, ou a União de Sindicatos Independentes (que, em 25 anos, adere pela primeira vez). O que poderia ser de estranhar é a insistência do Governo numa iniciativa tão impopular.

Ainda que tenha escondido o tema no programa eleitoral da AD, onde as referências são vagas, Montenegro partiu confortável (e com excesso de confiança) para este tema. Sabe que tem uma grande maioria de direita no parlamento, onde Iniciativa Liberal e Chega lhe garantem votos para aprovar as alterações à lei laboral. E, sem mobilização social, bastavam pequenos retoques de maquilhagem para garantir apoio parlamentar.

O primeiro-ministro subestimou os portugueses. Achou que uma extrema-direita domesticada no parlamento, que não se levanta em defesa dos trabalhadores, seria suficiente para aprovar uma revolução laboral sem grande escrutínio. Enganou-se e só depois de ouvir críticas de ex-ministros de direita, que classificaram a nova lei laboral de “inoportuna” e “bruta”, começou a tentar corrigir a trajetória.

Primeiro, a teoria era um (suposto) ímpeto modernizador, para preparar o mercado laboral para os desafios do futuro. Não concretizou essa ideia com exemplos, nem convenceu ninguém.

Depois, em pleno estado de desespero, Montenegro disparou promessas apressadas e sem fundamento sobre salários mínimos de 1500 euros e médio de 3000. Mais uma vez, não convenceu ninguém.

Segundo os inquéritos de opinião, apenas 1 em cada 5 portugueses concorda com o Governo da Aliança Democrática. Até a maioria dos eleitores do PSD está contra as medidas do partido. Não está garantido que esta greve geral e toda a mobilização popular seja capaz de reintegrar inteiramente uma lógica social no pacote laboral. Mas conseguirá, no mínimo, levar o primeiro-ministro a olhar para os portugueses com humildade.

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