
11.12.2025
A Europa deve regressar aos pilares que sustentam a relação transatlântica: segurança e defesa, cooperação económica e tecnológica, valores democráticos. Eles não desapareceram, mas estão sob pressão.
Há momentos na política internacional em que a história regressa disfarçada de novidade. A nova estratégia de segurança dos Estados Unidos, apresentada pela administração Trump, é um desses casos. Sob o pretexto de defender a chamada civilização ocidental, descreve a Europa como um continente em risco de apagamento e anuncia uma agenda de interferência direta na vida política europeia, desde migrações a identidades nacionais e liberdade de expressão. Não é estratégia, é narrativa ideológica.
Não é propriamente uma novidade. O trumpismo, mais do que Trump, deslocou a matriz do Partido Republicano. Reemerge a doutrina de Monroe que proclamava a América para os americanos. Se em 1823 servia para afastar a influência europeia, hoje visa algo mais perigoso: enfraquecer a democracia europeia e remodelar o continente segundo uma visão identitária. A admiração do Presidente dos EUA por autocratas e o enlevo com que fala de líderes que violam o direito internacional revelam um realinhamento profundo. Reduzir isto a estilo político é um erro. É uma alteração estrutural na relação transatlântica.
A profunda mudança na atitude dos EUA tem raízes claras. O movimento MAGA não olha para a Europa como aliada estratégica. Vê nela um obstáculo ao seu projeto ideológico. Já em 2018, Steve Bannon dizia que “o coração do projeto globalista estava em Bruxelas e que, portanto, bastava enfiar a estaca no vampiro”. Hoje essa retórica ganhou estatuto de política oficial.
A nova Estratégia de Segurança Nacional vai ainda mais longe e fala de extinção civilizacional. Acusa a Europa de perder identidade e tomar decisões erradas em matéria de segurança e imigração. Quando Washington pretende alinhar a Europa com esta visão, atravessa a fronteira que separa aliados de tutores. E quando figuras como Elon Musk pedem a abolição da União Europeia, amplificando discursos extremistas, o problema deixa de ser retórico e torna-se estratégico.
A mundividência de Trump reabre portas a uma lógica revisionista que reduz a política internacional a competição entre potências e vê o multilateralismo como fraqueza. É um regresso ao passado que despreza valores democráticos e fragiliza a arquitetura que garantiu décadas de estabilidade.
A resposta europeia não pode ser hesitante. Como lembrou António Costa, aliados não ditam identidades, não escolhem partidos, não reescrevem projetos soberanos. A Europa deve regressar aos pilares que sustentam a relação transatlântica: segurança e defesa, cooperação económica e tecnológica, valores democráticos. Estes pilares não desapareceram, mas estão sob pressão.
As próximas decisões europeias decidirão se a União continuará presa a discursos que a diminuem ou se assumirá plenamente a sua autonomia estratégica. Não se pede confronto. Pede-se maturidade e clareza. A Europa deve ser parceira dos EUA, nunca dependência dócil.
A história ensina que o preço da distração é sempre elevado. O revisionismo raramente anuncia o que pretende destruir. Fá-lo insinuando que está a salvar o que existe. Cabe à Europa reconhecer o risco antes de ser tarde demais.
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