
27.11.2025
Aretoma da atividade na fábrica da Bosch, em Braga, foi recebida com alívio na nossa região. Com a suspensão inicialmente prevista - que implicaria um lay-off de seis meses para cerca de 2500 funcionários - o futuro próximo seria duro e imprevisível para muitas famílias. Felizmente, o pior cenário foi evitado.
Ninguém desejava esta paragem, tal como atestei nos contactos com a administração e com a Comissão de Trabalhadores. A primeira, porque veria interrompida a sua produção e respetiva receita; os trabalhadores porque, em linha com a proposta de compensação, os seus rendimentos sofreriam uma redução.
Reconhecendo que a situação prejudica todos, sinto que penalizaria ainda mais quem vive com orçamentos familiares onde a margem de erro é magra. Em muitos destes casos, um corte no salário ameaça diretamente o pagamento da prestação da casa.
Apesar do desfecho mais dramático não se ter consumado, seria um erro virar a página sem retirar as devidas ilações. Na origem deste episódio está uma escassez de chips, cuja comercialização foi limitada pela China, sendo igualmente responsável pela redução ou interrupção de vários setores industriais pela Europa fora.
Este controlo das exportações de chips surgiu na sequência da intervenção, com o argumento de segurança interna, do Governo dos Países Baixos na gestão da empresa Nexperia, detida parcialmente pelo Estado Chinês. A resposta de Pequim, no entanto, não se afasta de outras limitações que tem vindo a anunciar como reação direta à Administração Trump, ou às novas tendências concorrenciais na política internacional.
Ficou claro, mais uma vez, que a economia europeia continua vulnerável ao comportamento de potências externas. Com uma simples interrupção no fluxo de chips, a nossa indústria arrisca ficar paralisada. Situação igualmente aplicável às terras raras - matéria onde a China detém 60% da mineração e, em tom monopolista, cerca de 90% do refinamento.
Em virtude desta dinâmica geopolítica, importa reconhecer que as cadeias de abastecimento globais passaram a ser mais imprevisíveis. A gestão privada pode acautelar condicionamentos às trocas comerciais, através de mais stocks, diversificação de fontes, ou aposta na integração vertical. Porém, não estamos perante uma mera questão logística.
Nesse sentido, também a esfera política deve assumir responsabilidade por uma estratégia industrial mais resiliente - em linha com iniciativas ao nível europeu, como o Chips Act.
Salvaguardar a nossa segurança económica implica recuperar a capacidade de produzir na Europa as componentes que precisamos. Desde chips avançados e outras tecnologias de ponta, às matérias-primas essenciais, que devemos explorar de forma mais sustentável, sem esquecer a aposta na qualificação e especialização dos trabalhadores.
Portugal e a União Europeia não devem (nem podem) regressar a modelos de autarcia, onde tudo se produz dentro de uma fortaleza. No entanto, quando a volatilidade se torna o novo normal, precisamos de nos adaptar, reforçando a nossa autonomia estratégica. Só assim conseguiremos proteger um horizonte de maior estabilidade para as nossas empresas e para os trabalhadores.
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